domingo, 18 de maio de 2014

O secular bairro de Beberibe (Recife)

Igreja Nossa Senhora da Conceição de Beberibe durante os festejos natalinos de 2013.


O bairro de Beberibe é uma das localidades mais antigas do Recife. Já pertenceu também a Olinda, Beberibe foi um presente de casamento, seu homônimo rio, já teve às águas mais limpas da província e hoje é a mais poluída. Beberibe do passado, já teve seus heróis e seus bandidos, suas revoluções, já foi terra de veraneios, de fé e devoção, do quilombo e da Estrada do Matumbo.  O fim da linha das maxambombas e bondes. Beberibe foi usado, maltratado e abandonado. Mas  Beberibe resistiu, e  tem história para ser contada.

BEBERIBE E A SUA HISTÓRIA

A história da localidade de Beberibe começou com a chegada do donatário da capitania de Pernambuco, Duarte Coelho e sua esposa D. Brites de Albuquerque em 1535. Com eles, veio Izabel Fróes, que era criada e afilhada da rainha D. Catarina, mulher do rei D. João III, de Portugal, e que viera  com recomendações da rainha, no sentido de ampará-la e protegê-la, o que foi feito. Mas adiante, D. Izabel Fróes casou-se com o auditor da gente da guerra, o português Diogo Gonçalves, que recebeu como dote de casamento uma vasta extensão de terra, onde hoje ficam os atuais bairros de Beberibe( que era bem maior do que é hoje, pois abrangia as áreas dos bairros de Caixa D’Água, Águas Compridas, Dois Unidos, Linha do Tiro, Porto da Madeira, Cajueiro e também o chamado Baixo Beberibe: Fundão, Água Fria e Arruda); Casa Forte e Várzea. Diogo Gonçalves resolveu fixar residência em Casa Forte, onde tornou-se senhor de engenho e fundou o Engenho Casa Forte, anos depois, fundou em Beberibe o Engenho Santo Antônio de Beberibe, a margem direita do rio de mesmo nome, onde mais tarde se formou um povoado. A Casa de Vivenda também ficava junto ao rio, à direita da ponte atual (1908), e a pequena distância, um pouco para o norte, na entrada da praça, foi situado o edifício da fabrica, ficando de permeio a capela, porém mais afastada para o oeste, de forma que, traçando uma linha de união sobre essas três construções, formou-se um perfeito triângulo. Levantado o engenho e fundados os canaviais, começaram a fluir diversos moradores, que obtiveram a concessão de lotes de terras para o cultivo da cana. Há registro, que o sr. Francisco Barbosa e a sua mulher Maria de Oliveira, casal que veio com o donatário em 1535, foi um dos primeiros proprietários de lotes de terra em Beberibe  que se tem notícia.

Em 1609, as terras de Beberibe pertencente a Diogo Gonçalves, passaram para ao mãos de seu filho Leonardo Fróes e o Engenho Santo Antônio de Beberibe passou a chamar-se: Engenho Velho de Beberibe. Em 1636, o engenho passou a ser propriedade do colono Antônio de Sá e em 1637, os holandeses chegaram à Beberibe e confiscaram as terras e o Engenho Velho de Beberibe, que logo passou a se chamar de Engenho Eenkalchoven. Os holandeses vende o engenho ao sr. Duarte Saraiva por dez mil florins. Os holandeses foram expulsos de Pernambuco em 1654, e as terras que haviam sido confiscadas, como também, o engenho, foram devolvidos aos seus antigos donos e  descendentes. Com o decorrer dos anos, o engenho foi caindo em abandono, de sorte que, em fins do século XVII, o engenho não safrejava mais. Em testamento feito em 1708, por José de Sá e Albuquerque, os bens que possuía, não fala mais em engenho, e sim  na Fazenda de Beberibe, em uma légua de terra, de que talvez tirasse melhores vantagens na exploração de suas matas com o fabrico de carvão e exportação de suas madeiras, do que no trabalhoso confinamento do açúcar. Em 1739, a Fazenda de Beberibe já era de propriedade do coronel Jacinto de Freitas da Silva, fidalgo da casa real, e de sua mulher , D. Jeronyma Paes Daltro. A última benfeitora do antigo engenho e Fazenda de ,Beberibe, foi D. Josepha Francisca de Freitas e Silva que faleceu em 1856.

O QUILOMBO DE CATUCÁ (1817-1830)

Aproveitando o rebuliço ocasionado pela Revolução de 1817, vários escravos do interior de Pernambuco, fugiram das fazendas e engenhos e dominaram os centros urbanos de Paudalho, Santo Antão, Igarassu, Olinda e Goiana, saqueando o comercio e cometendo agressões e homicídios, o que provocou desespero e pavor em toda a Província. O governo provinciano designou diversas diligências para combater o quilombo que se embrenharam-se nas matas da Guabiraba (onde atualmente ficam o Córrego do Jenipapo, Guabiraba, Buriti  e Macaxeira). Muitos moradores de Beberibe chegaram a ser punidos por manter relações comerciais com o quilombo. Com o fim da revolução em maio, o presidente da província intensificou as buscas na tentativa de aniquilar o quilombo que resistiu até 1830. Em 30 de setembro de 1828, o juiz de paz de Beberibe, Boaventura de Melo Castelo Branco saiu com sua tropa para enfrentar o Quilombo de Catucá. Mais quatro anos depois, quando tudo parecia tranquilo, quilombolas sobreviventes de Catucá, na tarde de 19 de novembro de 1834, voltaram a agir. Um pardo de nome Gonçalo José de Jesus e seu filho menor de idade, ambos moradores de Olinda, saíram para caçar nas matas de Sapucaia, no Distrito de Beberibe, quando se depararam com quatro negros e duas negras do quilombo. Sendo que um deles estava armado com uma granadeira e os outros com afiados chuchos de madeira. Por caírem na desconfiança dos negros de que andavam em diligência contra eles, pai e filho acabaram sendo agarrados e tiveram que entregar a pólvora, o chumbo e a clavina que levavam consigo. No meio da confusão, Gonçalo conseguiu fugir, mas seu filho não teve a mesma sorte e acabou sendo assassinado pelos quilombolas. O ocorrido se espalhou por Beberibe e o pavor tomou conta do povoado novamente. Ao tomar conhecimento do fato, Boaventura de Melo, Juiz da Paz do 6º Distrito de Beberibe, informou ao Juiz de Direito da Comarca do Recife, Bento Joaquim Miranda que ordenou novas buscas pelas matas de Beberibe.
Monumento erguido em 1972, numa obra de Abelardo da Hora em homenagem aos heróis pernambucanos de 1821.

A CONVENÇÃO DE BEBERIBE (1821)

Em 1821, o povoado de Beberibe começou a sentir a agitação pelas suas ruas, reuniões secretas eram frequentes, clérigos, intelectuais e militares planejavam derrubar do poder  o Presidente da Província de Pernambuco, o capitão-general Luís do Rego Barreto, aquele que seria o último governador português que Pernambuco teve. A Revolução Pernambucana de 1817, tinha sido abafada, mas havia uma onda de insubordinação e violência dominando todos os setores da população. Luís do Rego Barreto era um homem violento que só fez aumentar o clima de intranquilidade que vivia o povo pernambucano.
Na Vila de Goiana, iniciou-se um movimento que conseguiu depor Luís do Rego Barreto, expulsando-o para Portugal. No dia 5 de outubro de 1821, ele assinou sua capitulação, no episódio denominado Convenção de Beberibe. Instalou-se, então  uma Junta Governativa para governar Pernambuco, presidida por Gervásio  Pires Ferreira. Ela era formada, na sua maioria, por brasileiros. Apenas os comandos militares ficaram nas mãos dos portugueses.
Essa Junta Governativa foi o primeiro  governo livre e democrático que se instalou no Brasil, sendo Pernambuco a primeira província a se tornar independente de Portugal.

A CASA DO PAVÃO
A casa do pavão era um tradicional casarão azul em forma de chalé, localizado na Praça da Convenção, com gravuras de pavão em sua fachada. Inaugurada em 10 de maio de 1821, pertenceu a tradicional família Meira de Vasconcellos e nos anos 20 do século passado serviu de residência para o missionário sueco Joel Frans Adolf Carlson, fundador da Assembleia de Deus em Pernambuco. 


7 de novembro de 1825, ocorreu o primeiro registro de roubo em Beberibe noticiado pelo Diário de Pernambuco, que completou 189 anos de sua fundação, aconteceu através de um anuncio de um cidadão que teve dois de seus animais furtados. O anuncio dizia o seguinte: "Em dias do mês passado, furtaram do lugar de Beberibe, uma burrinha castanha com um filho da mesma cor, pertencentes a Bartholomeu Francisco de Souza, quem souber alguma notícia de tais animais ou descobrir onde eles se acham. Dirija-se ao sobredito na sua botica na Rua do Rosário, que lhe dará de prêmio 16 mil réis".  

Em 30 de março de 1846, através da Lei Provincial Nº 152, foi aberta a Estrada do Matumbo que ia de Beberibe até a subida da atual Rua Dalva de Oliveira até a Avenida Beberibe. Da estrada de Aguazinha seguindo por Jardim Brasil II até o sítio Salgueiro (onde fica a atual Rádio Tamadaré), deste ponto até Peixinhos, era conhecido por Estrada de São Benedito. Em 1968, houve uma mudança em seu traçado ligando diretamente a Estrada de São Benedito à Estrada do Matumbo, por fora de Jardim Brasil II transformando-se na atual Avenida Presidente Kennedy. Salientando que a antiga estrada começou a ser aberta de Olinda em direção a Beberibe. 

Clérigos, intelectuais e militares se reuniam em encontros secretos em Beberibe para conspirar contra o governo provincial de Pernambuco. Ilustração.

REVOLUÇÃO PRAIEIRA (1848)

Em face de várias revoltas que aconteceram durante o período regencial: Setembrada (1831); Abrilada (1832) e  Cabanada ou Guerra do Cabanos (1832 a 1835), promovido pelo Partido Regressista, os membros do partido eram, na sua maioria, portugueses que queriam a volta (regresso) de D. Pedro I.
Em face de tantas desordens, D. Pedro II, em junho de 1848, destituiu os liberais do poder e o governo de Pernambuco voltou às mãos dos conservadores. Inconformados com a perda do poder, os praieiros resolveram pegar nas armas. Em novembro de 1848, iniciou-se a Revolução Praieira, a última revolta interna do Segundo Reinado. Seus principais líderes foram Abreu e Lima, Nunes Machado, Pedro Ivo, Borges da Fonseca, Nascimento Feitosa, Bernardo Câmara, Henrique de Lucena, Lopes Neto, João Roma (proprietário do Diário Novo), Jerônimo Vilela, Castro Tavares e Manuel Pereira de Morais. A luta armada saiu de Igarassu e Olinda e foi ganhando reforços na zona  do Litoral-Mata.

No dia 1º de janeiro de 1849, os praieiros publicaram um Manifesto ao Mundo, exigindo justiça social. Em 22 de Janeiro, os praieiros resolveram atacar o Recife, para tomar o  governo da província. Entretanto, durante o ataque, ocorrido no dia 1º de fevereiro, foram derrotados pelas forças do presidente da província. No dia 2 de fevereiro, com a morte de Nunes Machado em combate na Soledade, os praieiros retiraram-se para o interior, inclusive, para o povoado de Beberibe, onde pretendiam resistir. Mas tudo em vão. Seus principais líderes foram presos e condenados à prisão perpétua  na Ilha de Fernando de Noronha.

Em 9 de outubro de 1857, o governo provincial criou o Distrito de Beberibe, que pertencia a Olinda.

O PRIMEIRO CEMITÉRIO DE BEBERIBE

O primeiro cemitério de Beberibe ficava entre a igreja de Nossa Senhora da Conceição de Beberibe e o rio Beberibe. Explicando melhor, antes da construção do primeiro cemitério da província de Pernambuco em Santo Amaro em 1851, os poderosos se enterravam dentro das igrejas e as pessoas pobres faziam cotinhas ou pediam esmolas para conseguirem dinheiro para serem enterrados próximo ou em terrenos entorno das igrejas, era uma tradição. O local santo de Beberibe transformou-se em cemitério. O fato é que era cercado por uma cerca de arrame o que facilitava a entrada de animais para pastarem, isso ocasionava um grande transtorno, pois os animais deixavam cadáveres desenterrados, além do mau cheiro, poluía o rio e causava revolta e protestos no povoado. Isso foi o que provocou a mudança do cemitério para a Estrada do Caenga (na atual Águas Compridas) em 1888, ano da inauguração. O fato do abandono e da solicitação para a transferência do cemitério para outro local foram notícia no Diário de Pernambuco. Vejam as notas abaixo:


Nota publicada pelo Diário de Pernambuco em 11 de novembro de 1857, sobre o abandono do  antigo cemitério de Beberibe.

Nota publicada pelo Diário de Pernambuco em 21 de setembro de 1878, sobre a solicitação do inspetor de saúde sobre a poluição do rio Beberibe provocada pelo cemitério.

Em 1866, começou a ser aberta a Estrada Nova de Beberibe (hoje conhecida como Avenida Beberibe). A obra teve início a partir da Encruzilhada e custou 18.326$000 (dezoito contos, trezentos e vinte seis mil réis) e foi concluída em 1867.
Maxambomba nos trilhos de Beberibe na primeira década do século XX. Foto: Allen Morrison (EUA).

Em 14 de maio de 1871, foi inaugurado o ramal do bonde de tração a vapor até Beberibe, com 4.450 Km de extensão, implantado pela Companhia de Trilhos Urbanos do Recife a Olinda e Beberibe  e que circulou por Beberibe até 1922. Nessa época, circularam pelo bairro as famosas maxambombas que começou a transitar pelo Recife no dia 5 de janeiro de 1866, implantada pela Brazilian Street Railway Limited. Em 1924, os bondes elétricos começaram a circular pelas ruas do Recife, como também em Beberibe. Após a 2ª Guerra Mundial a The Pernambuco Tramways and P. C. Limited, responsável  pela a execução dos bondes elétricos, perdeu o interesse pelo transporte de passageiros e encerrou as atividades. Os últimos bondes elétricos deixaram de circular em 1954, ficando uma única linha, que ia do bairro da Boa Vista até o bairro do Fundão pela Avenida Beberibe entrando na Estrada Travessa do Fundão (que através da lei Nº 96 de 5 de julho de 1948, sancionada pelo prefeito do Recife, Manoel César de Moraes Rego, passou a se chama: Rua Urbano Ribeiro de Sena, conhecida popularmente, como Rua da Barriguda) onde ficava o terminal.

Em 10 de novembro de 1872, o jornal "A Camponeza" do Recife anuncia a venda de escravos. O anuncio dizia o seguinte: " vende-se por qualquer preço que seja, dois bonitos negros, e um mulato carambola dores. A tratar com o Barbaridade em Beberibe.

Em 2 de maio de 1879, através da Lei Provincial Nº 1383, Beberibe foi elevada a categoria de freguesia.

Mathias Theodoro da Rocha, um dos fundadores do Clube Vassourinhas do Recife e autor da marcha "Vassourinhas" considerado o hino do carnaval Pernambucano e que envolve grande polêmica. Ele faleceu em 1907.

Em 6 de janeiro de 1889, era fundado no bairro de Beberibe, que pertencia ainda à Olinda,  o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas do Recife. Treze de seus fundadores foram integrantes da agremiação carnavalesca Maruim Grande, do Pátio do Terço, no Recife. Já a marcha Vassourinhas, composta por Mathias Theodoro da Rocha e Joana Batista, considerada o hino do carnaval  pernambucano é datado de 1909, todavia, o pesquisador Evandro Rabelo em minuciosa investigação, descobriu que Joana Batista registrou a marcha em cartório em 1949,  como sendo da dupla e composta em 6 de janeiro de 1909. O Clube Vassourinhas adquiriu os direitos autorais da marcha à dupla por três mil réis em 18 de novembro de 1910, em documento assinado pelos dois e guardado no clube.  Aconteceu que o pesquisador Evandro Rabelo descobriu uma publicação do Jornal do Recife, na edição de 9 de agosto de 1907, na seção de necrologia onde registra a morte de Mathias Theodoro da Rocha, de 43 anos, em 13 de julho de 1907. Há de se perguntar:, Como é que a música foi composta em 1909 se o seu autor faleceu em 1907? Quem assinou o recibo no lugar de Mathias em 1910?


Em 2 de junho de 1908, através da Lei Municipal de Olinda Nº231, foi criado o Distrito de Beberibe, na era do Brasil República.

Em 24 de fevereiro de 1922, é inaugurado no distrito de Beberibe, a luz elétrica, pela empresa Beberibe Eletric Light Company, saindo uma composição de trem especial da Rua da Aurora, com os convidados até Beberibe. Após a inauguração, houve um grande jantar em solenidade que aconteceu  no Palace Hotel, de propriedade da empresa e que  contou com a presença das altas autoridades do Estado, representantes da imprensa e convidados.

Em 11 de setembro de 1928, através da Lei Estadual Nº 1931, sancionada pelo governador Estácio de Albuquerque Coimbra,  o distrito de Beberibe foi transferido do município de Olinda para o município do Recife.
Antigo ônibus da Empresa São Paulo que surgiu em Beberibe em 1944.

Foi no bairro de Beberibe em 1944, que os irmãos Raul e Mário de Mello Morado, deram início a história de uma das maiores empresas de transporte de passageiros do Recife, a Empresa São Paulo. Os dois adquiriram apenas um ônibus, modelo jardineira, chamado na época de beliscada. Enquanto um dirigia, o outro fazia a vez de cobrador. Atualmente, a Empresa São Paulo é comandada por Luiz Antônio Morato, tem 117 ônibus, opera em 19 linhas e atende em média a 1.600.000 passageiros/mês.

No dia 21 de outubro de 1949, o extinto Diário da Noite, publicou uma matéria sobre o desespero do padre Severino Maurício Viana, ou simplesmente padre Viana, em busca de dinheiro perante os órgãos estaduais e municipais, além da distribuição de 300 cartas redigidas por ele aos comerciantes e industriários da região no intuito de comprar o  prédio de Nº 91 que fica  ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Beberibe, de propriedade de um cidadão de nome  Comber, que estava pedindo pelo imóvel a quantia de CR$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil cruzeiros),  um preço considerado altíssimo pelo padre Viana que desejava fazer ali uma escola para as crianças carentes de Beberibe. O padre Viana saiu à rua e começou a pedir, a rogar, a implorar. Solicitou audiências, entrou em filas e esperou dias inteiros à espera de sua vez. Visitou dezenas de gabinetes, foi bem recebido por uns e quase que enxotado de outros.
A verdade é que a luta do padre Viana, que na ocasião, fazia 15 anos como pároco daquela paroquia de Beberibe, valeu a pena, pois, conseguiu doação da Câmara Municipal do Recife a quantia de CR$ 100.000,00 (cem mil cruzeiros) e CR$ 10.000,00 (dez mil cruzeiros) resultado das 300 cartas distribuídas pelo padre, e para melhorar, o sr. Comber,  proprietário do imóvel, baixou o valor inicial para CR$ 125.000,00 (cento e vinte cinco mil cruzeiros). O padre Viana ainda recorreu a dois amigos e tomou emprestado CR$ 15.000,00 (quinze mil cruzeiros). O padre Viana com o dinheiro na mão, finalmente comprou o tão sonhado prédio que passou a se chamar de “Obra Social Cura D’ars”, nome dedicado ao padroeiro dos vigários. O fato foi publicado no Diário da Noite de 29 de agosto de 1950.

Praça da Convenção em Beberibe, inaugurada em 1952 e reformada pelo prefeito do Recife, Augusto Lucena em 1972.

Em novembro de 1949, começou a ser construída, uma  ponte de concreto  ligando Recife a Olinda, onde hoje fica a feira livre de Beberibe,  e a Praça da Convenção,  sendo inauguradas em 30 de janeiro de 1952 pelo prefeito Antônio Pereira.  

A Lei municipal do Recife Nº 564, de 24 de novembro de 1949, sancionada pelo prefeito Manoel César de Moraes Rêgo, classificou de Avenida Aníbal Benévolo, a estrada que começa no Alto do Céu, em Beberibe e vai até o Alto do Pascoal, em Água Fria.

O Mercado de Beberibe existe desde a década de 1950, mas só tornou-se público em 1985.

O Mercado Público de Beberibe existe desde a década de 1950, mas pertencia ao setor privado. Mas, em 12 de novembro de 1985, foi reinaugurado como mercado público, com 54 boxes.

Em 1952, foi inaugurado o Cinema Ipojucam, na Praça da Convenção, s/nº, em Beberibe, com capacidade para 360 pessoas. Este cinema não funciona mais.


O TRÓLEBUS – A ERA DO ÔNIBUS ELÉTRICO

Em 1959, o prefeito do Recife, Pelópidas Silveira, adquiriu dos Estados Unidos à Marmon-Herrington, um lote de 65 ônibus elétrico, o chamado trólebus. Na primeira leva, chegaram os primeiros cinco ônibus, modernos para época, tinham capacidade para transportar cem passageiros, sendo quarenta e nove sentados e eram os únicos do Brasil a possuírem ventilação artificial, equipados com motores Westighouse de 140 HP. Em 1960, já na gestão do prefeito Miguel Arraes de Alencar começaram a circular os primeiros, na linha de Casa Amarela. Depois foi criada a linha 101- Beberibe que vinha da Praça da Convenção e ia até a Avenida Guararapes servindo a toda população do Beberibe de Baixo. Os trólebus deixaram de circular pela Avenida Beberibe em 1981.

OS FAMOSOS DE BEBERIBE


TARÁ- O pernambucano Humberto de Azevedo Viana, o Tará, nasceu em 1914 começou jogando futebol, no Mocidade de Beberibe em 1929. Marcou as décadas  de 1930/1940, como um grande artilheiro, sendo o primeiro jogador a ser artilheiro do campeonato pernambucano em três edições: 1938, com 25 gols; 1940, com 20 gols; e a outra foi jogando pelo Náutico em 1945, quando fez 28 gols. Tará foi o maior artilheiro da história do Santa Cruz com 207 gols marcados, sendo seis vezes campeão pernambucano (1931, 32, 33, 35 e 40 pelo Santa Cruz e uma pelo Náutico em 1945)  Ele era policial militar e chegou ao posto de coronel. Ele era irmão do famoso jogador do Náutico e Fluminense carioca, Orlando Pingo de Ouro. Tará rejeitou propostas do Fluminense e Vasco da Gama por causa da carreira militar. A tribuna de honra do Campo do Derby,  no Recife, leva o seu nome. Tará faleceu de um ataque cardíaco em 7 de setembro de 2000, aos 86 anos. 

Patrícia França em 1992, quando estreou na Rede Globo.

Patrícia França aos 5 anos, quando ainda morava em Beberibe, na Avenida Uriel de Holanda.

Nos anos 70 do século XX, duas grandes personagem que  nasceram em Beberibe, surgiram para o estrelato, a atriz Patrícia França e o jogador de futebol Rivaldo. No dia 28 de setembro de 1971, nascia em Beberibe, na Rua Uriel de Holanda, Patrícia França Monteiro de Oliveira. Filha de uma mulher que acumulava as profissões de açougueira e cabeleireira e um professor de história em escolas públicas da periferia. Patrícia França morou em Beberibe até os seis anos de idade, depois mudou-se para o bairro vizinho do Arruda, onde estudou na Escola Estadual Professor Alfredo Freyre, que até 1985 era considerada a melhor escola da região, lá fez peças de teatro infantil quando tinha apenas nove anos, dirigida por Ilza Cavalcanti. Aos 14 anos, ganhou no Recife o prêmio de atriz revelação, Tebo (Festival de Teatro de Bolso), com a peça: “A menina que queria dançar”. Em 1985, aos 15 anos, começou a fazer comercial para a televisão. Ficou conhecida no Recife com suas aparições nos comerciais das confecções Nezita e do supermercado Socimasa. Entre as peças de teatro antes da fama nacional, destacam-se: “A ver estrelas”, de João Falcão, e Caxuxa, de Walmir Chagas e Cláudio Ferrário. Patrícia França estreou na Rede Globo em 1992, na minissérie Tereza Batista, depois participou das novelas globais: Sonho Meu (1993), Suave Veneno (1999), A Padroeira (2001) e fez:  A Escrava Izaura, na Rede Record em 2004. No cinema fez “Orfeu” em 1999.
Rivaldo em 1998, jogando contra a França, no ano seguinte ele se tornaria o melhor jogador de futebol do mundo.

Rivaldo Vitor Borba Ferreira (Rivaldo) nasceu em 19 de abril de 1972, no bairro de Beberibe, ainda muito novo, mudou-se com familiares para Jardim Paulista, no município do Paulista, Região Metropolitana do Recife. Em 1984, foi levado por Mário Santana, técnico das categorias de base do Santa Cruz para um teste, não sendo aprovado. Em 1989, quando Rivaldo jogava pelo Paulistano de Paulista-PE, foi descoberto pelo ex- jogador Ramon, que foi um grande artilheiro do Santa Cruz e Vasco da Gama. Rivaldo teve sua segunda chance no Santa Cruz e se destacou-se nas categorias de base. No time principal, foi sempre reserva, e assim, foi campeão pernambucano em 1990. Em 1992, disputou a Copa São Paulo de Juniores, sendo grande destaque, juntamente com Leto e Válber. Terminado o torneio, os três foram contratados pelo Mogi-Mirim-SP, daí por diante, Rivaldo tornou-se um jogador consagrado e jogou em grandes clubes do Brasil e do exterior e pela Seleção Brasileira. Foi eleito o melhor jogador do mundo em 1999, quando jogava pelo Barcelona e foi destaque e titular da Seleção Brasileira, campeã da Copa do Mundo, no Japão-Coreia do Sul em 2002. Rivaldo ainda ganhou muitos títulos e prêmios no Brasil e exterior. Rivaldo defendeu as cores do Paulistano-PE, Santa Cruz, Mogi- Mirim, Corinthians, Palmeiras, Deportivo La Coruña-ESP, Barcelona, Milan, Cruzeiro, Olympiakos-GRE, AEK-Atenas-GRE, Bunyodkor-UZB, São Paulo, Kabuscorp-(Angola), São Caetano e encerrou a carreira de jogador em 15 de março de 2014, jogando pelo Mogi-Mirim, onde é dirigente do clube do interior paulista.

Em 29 de dezembro de 1972, o prefeito do Recife, Augusto Lucena, inaugurou na Praça da Convenção em Beberibe, monumento em homenagem à Convenção de Beberibe que aconteceu em 1821. A obra é de Abelardo da Hora, onde elementos que formam o povo brasileiro erguem os braços ao anjo da liberdade, denominação feita pelo autor da obra que tem 8 metros de altura e custou CR$ 120,000,00 (cento e vinte mil cruzeiros). O prefeito Augusto Lucena discursou: "A história está sempre presente, que por ele não pertence aos mortos. Pertence aos vivos. Porque, cada vez mais, ela é motivação e é forma de ação para o futuro".
Clube Bela Vista, tradicional agremiação de Beberibe.

NOITES CUBANAS NO CLUBE BELA VISTA

No dia 24 de outubro de 1980, era fundado na Avenida Aníbal Benévolo, 636, Alto do Céu, bairro de Beberibe, um dos clubes mais tradicionais da cidade do Recife, o Clube Bela Vista, que é conhecido na cidade como o clube das noites cubanas, funciona aos sábados e domingos, e desde 25 de setembro de 1992 aderiu a este estilo de música, recebendo inclusive, destaque em 2005, pela Revista Playboy em seu guia turístico, que o classificou como uma das melhores casas de show noturna da cidade. O Clube Bela Vista já foi tema de reportagem no Fantástico, da Rede Globo e da Revista Veja. Na XIV Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba, o Clube Bela Vista recebeu o troféu Gregório Bezerra, pela divulgação da música cubana.

Atualmente, o bairro de Beberibe ocupa uma área de 49 hectares². Está a 6,92 KM do centro do Recife e tem, segundo o Censo do IBGE (2010), 8.856 habitantes residentes, sendo  4.321 homens e  4.625 mulheres. A Lei Nº 16.293 de 3 de fevereiro de 1997, sancionada pelo prefeito do Recife, Roberto Magalhães, dividiu os bairros do município em RPAs (Região Político Administrativa). Beberibe faz parte da RPA-2 e microrregião 2.3, sua divisão ficou estabelecida da seguinte forma: Começa na Avenida Beberibe, na confluência das Ruas Dona Virtuosa de Lucena, do Anil e Marajó; segue por esta última, atinge a Avenida Aníbal Benévolo, deflete à direita para alcançar a Rua Alto dos Coqueiros, onde deflete à direita, prosseguindo ao encontro da Rua Uriel de Holanda, por onde deflete à  direita, atingindo a Avenida Hildebrando de Vasconcelos, onde deflete à esquerda alcançando o Rio Morno, onde deflete à direita seguindo até a sua foz no Rio Beberibe; por este Rio (Limite Olinda-Recife) desce até o trecho final da Rua Dona Virtuosa de Lucena, onde deflete à direita e se encaminha para a Avenida Beberibe, ponto inicial.

Início do século XX, a antiga Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Beberibe.

DA CAPELA À PARÓQUIA  DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO DE BEBERIBE

A primeira capela de Nossa Senhora da Conceição foi construída no início do século XVII, com a fundação do Engenho Santo Antônio de Beberibe em data não conhecida e que desapareceu em data também  desconhecida. Em terreno doado pelo coronel Jacinto de Freitas da Silva  em 29 de setembro de 1743, foi incorporada  a nova capela da irmandade sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição de Beberibe, que teve várias interrupções em sua construção e que só foi concedida ao público em 1767, ainda neste ano, a capela passou para a irmandade do Santíssimo Sacramento. Em 1787, a capela passou para a irmandade de Nossa Senhora da Boa Hora, formada por homens pretos, homens livres e também escravos. Depois de alguns anos a irmandade chegou ao fim. Em 1850, foi construída por ordem de Frei Caetano de Messina,  uma nova igreja de Nossa Senhora da Conceição de Beberibe, e que em 1872, a igreja tornou-se uma paróquia. Em 1905, foi inaugurada a atual paróquia,  que sofreu algumas reformas com o passar dos anos.
Ritual de batismo de uma igreja evangélica nas águas limpas do Rio Beberibe, no início do século XX.

A ORIGEM DO NOME

O nome Beberibe é de origem indígena, no entanto, no passado,  o seu significado causou uma grande polêmica na hora de decifrá-la . Alguns consideravam que vinha  de “vibapybe”, que  significa” lugar onde cresce a cana”; já os holandeses quando tomaram este povoado em 1637, chegaram a chamar e relatar em seus relatórios a palavra: “Bibaribe”.  Outros afirmavam que o nome vinha  do tupi “labebier-y”, que significa “rio das raias, dos peixes chatos”; entretanto,  o que parece mais lógico e consensual  é a teoria publicada na Revista do Instituto do Ceará, que por sinal, tem um município por nome de Beberibe, e que segundo seu autor,  Paulino Nogueira, relata que o padre Antônio Ruiz de Montoya  afirma que a palavra Beberibe vem da palavra “bebéribe”, que significa  bebé= voar, pairar e ribe= em companhia, em bando. A tradução do padre Montoya parece a mais aceitável, já que Beberibe antigamente fazia parte da Mata Atlântica, repleta evidentemente,  de árvores e riachos, o que atraía muitos pássaros, que debandavam aos montes.  Em  1816, um cronista registrou: “Deixando o Recife passa-se pelo povoado de Beberibe, situado pelo rio de mesmo nome...”, daí em diante, se oficializou a palavra Beberibe, descartando todas as demais.

Atualmente, o Rio Beberibe vive entupido de lixo provocado pela ignorância de muitos de seus moradores que jogam de tudo naquele que já abasteceu a cidade de Olinda com sua água potável.

RIO BEBERIBE, UM PARAÍSO PERDIDO

O rio Beberibe nasce no atual município de Camaragibe, em Pernambuco, no lugar que antigamente era conhecido por Cabeça de Cavalo, em um córrego denominado de Pacas, numa mata que pertenceu  aos antigos donos dos engenhos Timbó e Massiape. Hoje,  este lugar é repleto por chácaras e sítios particulares e bastante procurado por turistas e veranistas, conhecido como Aldeia. O Rio Beberibe tem 23 quilômetros de extensão, sendo,  14,19% de seu percurso no município de Camaragibe, 64,51% no município do Recife e 21,29% no município de Olinda.  O rio Beberibe vem sofrendo com a degradação de seus leitos, ano a ano. A ocupação urbana desordenada ao longo do Rio Beberibe, que vem ocorrendo nos últimos 50 anos, em razão da ocupação desordenada da zona norte do Recife, dos morros de Olinda e da agressão às suas nascentes em  Camaragibe. Isso causa assoreamento da sua calha pelos solos trazidos dos morros, o estreitamento do rio e seus afluentes pelas as ocupações de suas margens e a contaminação de suas águas, pelo lançamento do esgoto doméstico.  Nos  últimos anos, o rio Beberibe perdeu tanto  sua importância, que até os atuais autores que escrevem sobre ele, citam afluentes que nem existem mais. Um exemplo claro disso são  os riachos, Beringué ou Roncador  e o Quimbuca ou Combucas, que  nasciam no Monte Berenguer (onde hoje fica o bairro olindense do Alto da Bondade), mais que com o desmatamento e o crescimento habitacional , os dois riachos simplesmente desapareceram como tantos outros.  A verdade é que alguns ainda resistem, mas não são mais aqueles riachos limpos do passado, podemos dizer que são canais que cruzam vários bairros da zona norte do  Recife e toda parte da região oeste  e  sul de  Olinda e que desembocam no Beberibe.

No Recife, existem  grandes  canais, um deles, começa no Brejo da Guabiraba, atravessa os bairros do Córrego do Jenipapo, Macaxeira, Casa Amarela, atravessando toda a Avenida Norte,  também conhecida como  Avenida Miguel Arraes de Alencar,  seguindo pelo canal do Arruda, que antigamente era conhecido como riacho do Jacaré, passando por Campo Grande; chegando em Olinda, passa por Sítio Novo e Salgadinho, onde encontra-se com o Rio Beberibe.

Outro, começa no Córrego do Jenipapo, nascente do antigo riacho do Brejo, também conhecido como riacho Quente ou Morno, passando por Nova Descoberta, Brejo, Linha do Tiro, Dois Unidos, chegando ao bairro de Beberibe, onde desemboca no rio de mesmo nome.

Outro canal bastante conhecido, é o canal do Vasco da Gama, que começa lá no Brejo da Guabiraba, passando pelo Córrego do Jenipapo, Nova Descoberta, Vasco da Gama, Córrego de Euclides, Córrego do Bartolomeu, Bomba do Hemetério, onde encontra-se com o canal que vem do Córrego São Sebastião, em Água Fria, encontrando-se com o canal do Arruda que vai até o bairro de Salgadinho, em Olinda, onde desemboca no Rio Beberibe.

Em Olinda temos dois riachos que merecem destaques  e que antigamente eram afluentes do Rio Beberibe de grande importância, são eles: Rio de Passarinho, antigo Riacho das Moças e o Canal de Águas Compridas, antigo Riacho Lava-Tripas. O Rio de Passarinho começa na BR-101- Norte, na estrada de Passarinho e que teve seu volume de água reduzido, após a construção de uma represa antes da antiga Estrada da Recuperação, passando pela Vila Nossa Senhora da Conceição, onde antigamente desembocavam em seu leito os extintos riachos Beringué e Combucas que nasciam no Monte Berenguer, é nesse trecho, que o Rio Passarinho começa a sofrer sua fase mais crítica, com a poluição, onde os dejetos domésticos começam a ser despejados em toda sua trajetória, atravessando os bairros de Passarinho, Caixa D’Água, Córrego do Abacaxi até encontra-se com Rio Beberibe no bairro do mesmo nome.

O Canal de Águas Compridas, o antigo riacho Lava-Tripas, começa no bairro da Mirueira (Paulista) atravessando os bairros olindense de Santa Casa, Águas Compridas, São Benedito, Sapucaia e Aguazinha, cruzando com a Avenida Presidente Kennedy, onde encontra-se com o Rio Beberibe.
Outro canal bastante conhecido em Olinda é o Canal da Malária. Ele é tão sujo, tão sujo, que mereceu crítica até do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva em discurso em 2008, em Olinda. Disse ele: “É inconcebível  em uma cidade como Olinda, ter um canal tão sujo, com o nome de malária”.  O Canal da Malária começa em Jardim Brasil, passa pelo bairro do Amparo, passando pela comunidade do V2, chegando ao bairro do Varadouro, passando pelo V8 e chegando a Ilha do Maruim, onde desemboca no maltratado Rio Beberibe.

Em junho de 2012, Começou a primeira etapa da dragagem do Rio Beberibe, começando num trecho de 2,2 quilômetros, até a ponte da Avenida Olinda. Já foram retirados quase 500 mil metros cúbicos de lama e lixo. A sujeira daria para encher  cerca de 62,5 mil caçambas. Estão previstos a limpeza de 13 quilômetros, dos 23 quilômetros do rio, nas áreas mais críticas. Com a dragagem o rio  ficará com 2,3 metros de profundidade e em alguns pontos, ficará com 80 metros de largura. A recuperação do Rio Beberibe  estar orçada em R$ 63 milhões, com recursos do governo federal e estadual. Calcula-se que serão necessários a desapropriação de 260 imóveis. A obra estar prevista para terminar agora em 2014. Fica evidente, que a situação do Rio Beberibe vai melhorar bastante por algum período, mas jamais voltará a ser aquele rio do século XIX, pois os canais que são os grandes responsáveis pelos dejetos jogados no Beberibe, não terão nenhuma ação governamental, além da falta de conscientização da população ribeirinha, que em sua grande maioria continuam jogando lixo no rio.

Cartão Postal de 1907, do Rio Beberibe.

O RIO BEBERIBE NO INÍCIO DO SÉCULO XX

O Rio Beberibe já chegou a ser um rio tão limpo que abastecia todo o vilarejo de Olinda e Recife. As canoas com água potável, eram transportadas por escravos e consumida na cidade do Recife, desde fins do século XVII. Por volta de 1690, as águas do Rio Beberibe, em Olinda, foram represadas, por uma elevação e transportadas por escravos canoeiros para o consumo urbano do Recife, além das embarcações atracadas no porto.

No início do século XIX, o Rio Beberibe começava a dar os primeiros sinais de impurezas e poluição provocadas pelos moradores ribeirinhos, até que em 13 de setembro de 1833, o Presidente da Província de Pernambuco, Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos, assinou um decreto proibindo a venda d’água do Beberibe para Olinda, onde poderia ser consumida apenas às águas das 24 bicas existentes no Varadouro (Olinda) ou nas fontes do Poço da Panela e na do Cavoco do Monteiro, consideradas na época, as melhores fontes d’água do Recife, pela sua limpidez e pureza. Aos infratores que fosse pegos em embarcações transportando água do Rio Beberibe, como potável, eram multados em 6 mil réis.

O Dicionário Corográfico, Histórico e Estatístico de Pernambuco, editado em 1908, publicou um retrospecto geral do Rio Beberibe no início do século XX, da seguinte forma:


O Varadouro em 1830, com suas bicas, onde se consumia a melhor água de Olinda, acima à esquerda, a Igreja de São Sebastião. Gravura: Pinacoteca de Igarassu

Moinho de captação de água na estação de tratamento de Caixa D'Água, na época, distrito de Beberibe, A distribuição em Olinda era feita pela Companhia de Abastecimento Santa Thereza, bastante criticada pela população e pela imprensa por usar métodos ultrapassados e arcaicos, como este da foto do Diário da Manhã do dia 31/1/1928.  

O Rio Beberibe, nasce no lugar Cabeça de Cavalo, de um pequeno olho d’água, situado no Córrego denominado das Pacas entre o município de São Lourenço da Mata e Olinda, nas matas dos Engenhos Timbó e Massiape; daí se forma o pequeno riacho que tomou aquele nome, e vem recebendo outros muitos riachinhos e vertentes, seguindo um curso muito tortuoso em zig-zag, na direção geral, pouco mais ou menos de leste-oeste, coberto inteiramente por matas virgens, até o lugar onde recebe o riacho denominado Secca, em distância de 15 Km abaixo da sua nascença e 11,5 Km, acima do porto chamado do Ferraz. Nesta extensão acha-se o rio em alguns lugares cortado por grandes bancos de areia, que atravessando-o de uma margem a outra, cortam o seu curso; porém observa-se, que as águas infiltrando-se nesses bancos de areia, atravessam e surgem na parte inferior da continuação do leito do rio, em forma de vertentes. Também se nota que a maior parte das vertentes e riachos, que se encontram  naquela extensão do rio acima do porto Ferraz, secam pelo verão, e por esse motivo o Rio Beberibe é de nenhuma importância na referida extensão. Do porto Ferraz, até a povoação de Beberibe tem o rio a extensão de 4,5 Km seguindo o próprio leito, que é sempre muito tortuoso, porém muito abundante de água, em consequência de muitos riachos afluentes que recebe nesta extensão; de maneira que conserva a largura regular de 5 a 6 metros, e a profundidade variável de 44 Cm a 66 Cm e com a correnteza de 2 a 3 milhas, em alguns lugares de 4 a 5 milhas, onde tem sido cortadas as voltas.
 O Rio Beberibe fotografado por Augusto Stahl em 1858. Foto: Instituto Moreira Salles.

Os principais afluentes dessa parte do rio são o riacho denominado Pimenta, e o riacho do Brejo, vulgarmente chamado rio Quente, alguns o chamam de Morno, e outros de Beberibe-Mirim. Ambos, estes riachos são perenes, ainda que o volume das águas do primeiro diminua muito no verão. O riacho Pimenta tem sua nascença ao pé do Monte denominado Chã do Alemães, e seu curso é de 4 Km pouco mais ou menos, e vai desaguar no Beberibe, 2 Km abaixo do porto do Ferraz. O riacho do Brejo ou rio Quente tem sua nascença no Córrego do Jenipapo do lado oposto ao do rio Pimenta, passa pelo lugar chamado Brejo, e por muitos terrenos alagados,  onde, achando-se completamente descoberto e exposto aos raios solares, resulta ficarem as suas águas mais quentes, que as do Beberibe, que é todo coberto de arvoredos, daí vindo chamar-se  rio Quente a esse riacho, que deságua no Beberibe junto ao povoado.

Daquele povoado até a cidade de Olinda, continua o Rio Beberibe o seu curso da mesma forma muito tortuoso, com extensão de 4 Km, 840 metros, passando por terrenos muitos baixos e pantanosos. Em toda extensão do seu curso tem aquele rio a declividade média de um por mil; as suas margens não se elevam mais de 4 a 6 palmos acima do nível das águas no verão, aonde resulta serem inundados os terrenos laterais logo que aparece qualquer cheia. O vale deste rio, desde a sua nascença até a povoação do mesmo nome, é muito estreito, porém da povoação para baixo alarga-se bastante, de maneira que, a pouca distância, entra na grande várzea denominada pântano de Olinda. Os terrenos laterais ao rio são de barro ferruginoso e massapê, nos lugares mais baixos ariscos; segundo dizem, não são de grande produção; mas, é de presumir não seja isso exato, porque aí se encontram muitas plantações, tais como mandioca, macaxeira (aipim), que produzem em grande abundância, e em alguns lugares também se encontram a cana de açúcar, o feijão, o arroz, e até mesmo o ananaz, abacaxi, cujas plantações alcançam grandes proporções, e produzem abundantemente sem auxílio de estrume.

Aspecto do povoado de Beberibe em 1908.

O único comércio que existe desde a povoação de Beberibe até o porto Ferraz é apenas de condução de madeira que descem pelo rio em balsas até a cidade de Olinda; porque o carvão que se faz nas matas daquela vizinhança, e que constituem aí o  único objeto de comércio, é todo conduzido em cargas para a cidade do Recife. Nas margens desse rio, abaixo da povoação, e até a cidade de Olinda, existem muitos sítios, com diversas plantações, sendo o capim de planta o principal produto, e para qual parece mais apropriada a maior parte desses sítios. Descrito como ficou todo o curso do Rio Beberibe, repetimos, resumindo, em melhor ordem e com outros esclarecimentos:  banha o Rio Beberibe (na Freguesia do Poço), município do Recife, as propriedades Ferraz, Pimenteiras (margem direita), Passarinho (pelo centro), Beringué, Quibuca (margem esquerda), Cafezeiros (à direita), e fronteiras de Coelhas, passagem das Moças (à direita) e depois seguindo pelo município de Olinda banha o cumbe, as povoações de Beberibe, do Porto da Madeira e do Coqueiro, sítios dos Craveiros, do Fundão, do Salgueiro e do Peixinho, até a cidade de Olinda, donde volvendo à direção Norte e Sul torna ao município do Recife, seguindo ao isthmo de Olinda e entre os  bairros de Santo Amaro das Salinas e de São Frei Pedro Gonçalves ou Recife, ao encontro do Capibaribe, na extrema meridional da Ilha de Santo Antônio, para juntos entrarem no oceano, passando sob as pontes Buarque de Macêdo e Sete de Setembro.

Os afluentes recebidos em todo o percurso são os seguintes: o Pimenteiras, o Secca, o Marmajudo, o Dois Unidos, o Água Fria, o Assador de Varas ou Chã de Piabas, o Beringué ou Roncador e o Quibuca ou Combucas ( esses dois, nasciam no Monte Berenguer, onde fica atualmente o bairro do  Alto da Bondade), o Tapa D’água ou Coelhas (nascia no Alto do Capitão, em Dois Unidos e desaguava no Rio de Passarinho), o Lava-Tripas (que corta o atual bairro de Águas Compridas) e o Beberibe Mirim  ou Morno (que corta os atuais bairros do Brejo e Linha do Tiro).   

Atualizado em 07/07/2016.
Por: Jânio Odon./Blog Vozes da Zona Norte (DIREITOS RESERVADOS)
Fonte: Diário de Pernambuco; Jornal do Commercio; Livro: “Cidade do Recife” de Artur Malheiros; “Dicionário Corográfico, Histórico e Estatístico de Pernambuco (1908)” de Sebastião de Vasconcelos Galvão; Livro: “A Fronda dos Mazombos: Nobres contra Mascates, Pernambuco, 1666-1715” de Evaldo Cabral de Melo; Clube Bela Vista; Veja 28 Graus; Revista: “Em busca do penta” da Comunigraf Editora (1998), Empresa de Transporte São Paulo; Atlas do Governo de Pernambuco (1821-1834).

16 comentários:

  1. Excelente pesquisa! Parabéns! Sou morador do bairro de Dois Unidos (vizinho ao de Beberibe) e fiquei feliz por ter ciência dessa informações. Continue assim, abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado Henrique, continue acompanhando blog. Terá mtas novidades.

      Excluir
  2. FICO FELIZ EM SABER MAIS SOBRE A HISTÓRIA DAS TERRAS AONDE NASCI E PERMANEÇO.O trabalho de pesquisa deixa entrever uma bela paisagem no percurso do rio,nos seus primeiros kilômetros.Talvez seja possível bonitas fotografias atuais.

    ResponderExcluir
  3. Obrigado pela visita e opinião. A intenção é manter a matéria com um tom nostálgico com fotos antigas.

    ResponderExcluir
  4. Sou moradora do atual bairro da Linha do Tiro e já escutei várias historias contadas pelo meu avô, hoje falecido, sobre o bairro de Beberibe. Alcancei os amigos jogando bola na "vagem" da beira do Rio morno, que não tinha moradia e ainda dava alguns peixes. Adorei seu trabalho, parabéns!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bom dia, Ale. É sempre um prazer imenso levar conhecimento a pessoas de uma região com tanta história e tão pouco divulgada. Obrigado, forte abraço.

      Excluir
  5. Amigo sou de Aguas Compridas será que vc encontra mais acervos eu li tudo e gostei muito pois e muito importante saber sobre a cidade onde nasci e vivo até hoje fiquei fascinado com a historia de Beberibe e Aguas Comprindas e alto da Bondade.

    ResponderExcluir
  6. Caramba, perfeita sua pesquisa!! Continue assim, é de extrema serventia para quem tem curiosidade acerca dos lugares onde nasceu e cresceu. Grande abraço e parabéns!!

    ResponderExcluir
  7. Fico feliz e me sinto privilegiado em ter na nossa sociedade recifense,o historiador e blogueiro Jânio de Alencar,fazendo esse elo de ligação do passado com o presente da história, da nossa terra e de nossa gente.Obrigado!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado Livio, o blog é independente, sem nenhum compromisso com qualquer orgão ou empresa. É apenas uma paixão pessoal pela história, principalmente com o que eu não consigo encontrar na net só nos livros, revistas e jornais antigos.

      Excluir
  8. Bom dia,gostei muito de ler sobre os bairros que são vizinhos de onde,nasci e me criei.Inclusive,gostaria de perguntar,porque vc não faz o mesmo trabalho com o bairro de caixa d'agua e corrego do abacaxi,pois nasci em caixa d'agua,hoje resido em São paulo,fica a sugestão.
    Um abraço

    ResponderExcluir
  9. Gostei de ler este texto muito interessante parabéns

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Meu muito obrigado aos leitores, Rui, Marta e Luvara. Breve mais novidades. Um abraço.

      Excluir
  10. Tou precisando de uma ajuda sua.... Estou fazendo um trabalho de linha do tempo falando sobre Beberibe e ver se o senhor possa me ajudar com imagens de beberibe em 1980 por essa ou 1970 nessa epoca como era a praça de beberibe ou parada de bus e a igreja catolica. é urgente essas imagens que irei entregar ao professor amanhã dia 01/06/2017. meu email amor.de.um.anjo25@hotmail.com

    ResponderExcluir
  11. Fiquei surpreso com vosso belo trabalho,sobre a região onde muitos habitam e poucos procuram melhor conhecer.Creio que procurarei fazer chegar este trabalho aos "desocupados" que me dizem que não tem que fazer..Obrigado mesmo

    ResponderExcluir